Carta de Guia de Casados
Dom Francisco Manuel de
Melo
Ao longo da leitura da Carta, escrita por Dom Francisco, é possível extrair os seguintes conselhos aos homens em relação a suas esposas:
Dos negócios:
"Nos cuidados e empregos dos homens, não se metam as mulheres (...)
a mulher sisuda deixe de dar a seu marido modestamente o seu parecer..."
Dos trajes e oficios da Mulher:
"Sirva a mulher de senhora de sua casa, satisfaça as obrigações deste oficio: que assaz fará de serviços, a sua casa, a seu marido, se o fizer como deve."
"Ande a mulher toda vestida, e sempre composta por sua casa, e jamais a vejam seus criados em habito indecente."
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
Camilo Castelo Branco
Escritor português
Camilo Castelo Branco (1825-1890) foi um escritor português. "Amor de Perdição" foi sua novela mais importante. Foi considerado o criador da novela passional portuguesa. Viveu uma vida agitada e teve vários casos amorosos que provocaram escândalos. Escreveu irreverentes crônicas para jornais. Ingressou na Escola de Medicina na cidade do Porto, mas não concluiu o curso. Dedicou-se à atividade literária, vivendo exclusivamente de seus trabalhos. Recebeu o título de Visconde concedido pelo rei de Portugal, D. Luis I.
Camilo Castelo Branco (1825-1890) nasceu no dia 16 de março, na freguesia dos Mártires, em Lisboa, Portugal. Filho de Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco e de Jacinta Rosa do Espírito Santo Ferreira. Ficou órfão de mãe com um ano e de pai com 10 anos. Foi morar com uma tia e depois com sua irmã mais velha. Em 1841, com apenas 16 anos, casou-se com uma jovem de 14 anos, Joaquina Pereira, mas logo deixa a mulher.
Em 1843 ingressou na Escola Médico-Cirúrgica na cidade do Porto, mas não conclui o curso. Em 1845 publicou seus primeiros trabalhos literários. Em 1846 fugiu com a jovem Patrícia Emília, mas a abandonou poucos anos depois. No ano seguinte morreu sua esposa legítima, de quem estava separado, e a filha do casal morreu no ano seguinte.
Camilo Castelo Branco passou por uma crise espiritual em 1850, e ingressou no seminário do Porto, pretendendo seguir a vida religiosa. Nesse ano conheceu Ana Plácido que casada com um comerciante, abandonou o marido em 1859 e foi viver com Camilo. Em 1860 é processado e preso por crime de adultério, mas é absolvido no ano seguinte, passando a viver com Ana. O casal foi morar em Lisboa e depois em São Miguel de Seide, sempre com muitos problemas financeiros.
Em 1863 publica Amor de Perdição, sua novela mais famosa. Sua vida atribulada lhe deu inspiração para os temas de suas novelas. Camilo Castelo Branco também reconstituiu em suas obras o panorama dos costumes de Portugal de seu tempo, quase sempre com uma profunda sintonia com as maneiras de ser e sentir do povo português. Em 1889 quando se torna uma celebridade nacional como escritor, recebe uma homenagem da Academia de Lisboa.
Obras
Mistérios de Lisboa (1854), Duas épocas na vida (1854), O livro negro do padre Dinis (1855), Vingança (1858), Carlota Ângela (1858), A morta (1860), O romance de um homem rico (1861), Amor de perdição (1862), Amor de salvação (1864), O olho de vidro (1866), O retrato de Ricardina (1868), A mulher fatal (1870), Doze casamentos felizes (1861), Estrelas funestas (1861), Estrelas propícias (1863), Coração, cabeça e estômago (1862).
Mistérios de Lisboa (1854), Duas épocas na vida (1854), O livro negro do padre Dinis (1855), Vingança (1858), Carlota Ângela (1858), A morta (1860), O romance de um homem rico (1861), Amor de perdição (1862), Amor de salvação (1864), O olho de vidro (1866), O retrato de Ricardina (1868), A mulher fatal (1870), Doze casamentos felizes (1861), Estrelas funestas (1861), Estrelas propícias (1863), Coração, cabeça e estômago (1862).
Uma doença nos olhos que pouco a pouco lhe tirava a visão, fez Camilo mergulhar em profunda depressão. Depois de saber que ficaria definitivamente cego, Camilo suicidou-se em São Miguel de Seide, Vila Nova de Famalicão, no dia 1 de junho de 1890.
“Viram-na, um momento, bracejar, não para resistir à morte, mas para abraçar-se ao cadáver de Simão, que uma onda lhe atirou aos braços. O comandante olhou para o sítio donde Mariana se atirara, e viu, enleado no cordame, o avental, e à flor da água, um rolo de papéis, que os marujos recolheram na lancha.”
(extraído do último capítulo de “Amor de Perdição”)
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Trovadorismo
Novelas de cavalaria
As novelas de cavalaria, surgidas durante o trovadorismo, são narrativas ficcionais de acontecimentos históricos, relatos de combate e aventuras de cavalheiros medievais enfrentando provações físicas e morais em nome da honra e do e do amor.
Com o advento humanismo, surge um novo ciclo, desvinculando dos ideais religiosos cristão e erotização das relações amorosas. Inicia se com a novela Amadis de Gaula (1508),de autor desconhecido, que foi reeditada e continuada ao longo do séc. VXl formando o ciclo de Amadises, que gerou dos livros todos em castelhano.
Novela de Cavalaria - Amadis de Gaula
Amadis de Gaula se transformou num dos mais célebres romances de cavalaria em circulação na Europa Medieval. A autoria da obra é reclamada por portugueses, espanhóis e até mesmo, por franceses.
Na versão espanhola de Garcí Rodríguez de Montalbo, Amadis é fruto dos amores clandestinos de Elisena, filha de Garínter, rei da Pequena Bretanha e do rei D. Perion de Gaula, que o abandonam em uma pequena arca nas águas do mar. Salvo por uma família que não lhe sabe a origem, com apenas sete anos de idade é escolhido para pajem de Oriana filha do Rei D. Lisuarte da Grã-Bretanha. A rainha é quem o apresenta a Oriana, com estas palavras: “Amiga, este é o pajem que voz servirá". Amadis guarda tais palavras no coração e enamora-se de Oriana e desde aí a sua vida desdobra-se num longo serviço inteiramente consagrado à amada. Tímido, durante muito tempo não revela seu amor. Amadis foi criado pelo cavaleiro Gandales que o leva a meter-se em fantásticas aventuras, sempre protegido pela feiticeira Urganda, e perseguido pelo mago Arcalaus, o encantador. Atravessa o arco encantado dos leais amadores no centro da Ilha Firme, luta contra o terrível monstro Endriago, matando-o. Passa por todo o tipo de perigosas aventuras, pelo amor, oculto da sua amada, Oriana.
A história acaba com o Rei Lisuarte, mal aconselhado por conselheiros invejosos, a afastar Amadis de sua amada e a tentar casar Oriana com um inimigo do herói. O Amadis resgata Oriana e leva-a para a Ilha Firme. Lisuarte, aliado a Galaor (ciumento de Amadis) e a Esplandian, declara guerra a Amadis. Através de várias batalhas, Amadis enfrenta Galaor, até que o mata. Lisuarte também é morto por Amadis em combate. Num terceiro, o herói enfrenta Esplandian, sendo que desta vez é Amadis que é morto. Oriana que, de uma janela, observa o combate, ao ver a morte de Amadis, atira-se dali para o solo e morre.
Fonte: Recanto das Letras
Para quem tiver interesse em ler mais sobre " Amadis e Gaula" , pode ler uma tradução feita por Graça Videira Lopes, da Universidade Nova de Lisboa, a partir do original castelhano de Garcí Rodríguez de Montalvo, se encontra aqui em PDF.
Sobre as Novelas de Cavalaria
Nem só de poesia viveu o Trovadorismo, mas também floresceu nesse período um tipo de prosa ficcional, as chamadas "Novelas de Cavalaria", embora a maioria das novelas de cavalaria em língua portuguesa são traduções ou adaptações de novelas francesas ou inglesas. Elas continham narrativas de assuntos de guerra, e ressaltava a figura dos "heróis-cavaleiros" que passavam por situações perigosíssimas para defender o bem e vencer o mal.
Esses cavaleiros medievais eram idealizados na figura de homens castos, fieis, dedicados, e sempre dispostos a qualquer sacrifício para defender a honra cristã, ou seja, de acordo com os ideais da Igreja Católica, por quem lutavam. Eles eram diretamente ligados as cruzadas e estavam envolvidos na luta em defesa da Europa Ocidental contra sarracenos, eslavos, magiares e dinamarqueses, considerados como "inimigos da cristandade".
As novelas de cavalaria se dividem em três ciclos:
1. O Ciclo Clássico - Narrativas baseadas na história e lendas de clássicos antigos, incluindo as façanhas de Alexandre, o Grande e dos heróis da Guerra de Tróia.
2. Ciclo Carolíngio ou Francês - Romances que tem por herói Carlos Magno e seus cavaleiros.
3. O Ciclo Bretão ou Arturiano - assuntos de origem Celta, especialmente centrados na corte do Rei Arthur e de seus célebres cavaleiros da távola redonda.
Geralmente, as novelas de cavalaria não apresentam uma autoria. Elas circulavam pela Europa como verdadeira propaganda das Cruzadas, para estimular a fé cristã e angariar o apoio das populações ao movimento. As novelas eram tidas em alto apreço e foi muito grande a sua influência sobre os hábitos e os costumes da população da época.
As novelas Amadis de Gaula e A Demanda do Santo Graal foram as mais populares entre os portugueses.
Novela de Cavalaria - João de Barros e a Crônica do Imperador Clarimundo
A narrativa cavaleiresca.
João de Barros e a Crônica do Imperador Clarimundo.
Nascido do casamento de Adriano, rei da Hungria, com a filha do rei de França, “Clarimundo” é tirado aos pais pelas intrigas de uma ama. Abandonado junto duma fonte, é recolhido por Grionesa, nobre viúva italiana, e educado por esta como filho. Ainda muito jovem pede e consegue ser armado cavaleiro pelo rei de França, que ignora ter diante de si o próprio filho. Iniciam-se, neste ponto, as maravilhosas aventuras e as muitas peregrinações do herói que é, entretanto, reconhecido pela mãe, acabando depois por encontrar ‘Clarinda’, a mulher da sua vida, filha de Apolinário, imperador de Constantinopla.
A relação amorosa segue os esquemas clássicos do género: é um sentimento sublime que consegue superar os obstáculos e dificuldades de toda a espécie e que será coroado pelo matrimónio, primeiro consumado em segredo, depois realizado oficialmente, após “Clarimundo”, com outros cavaleiros, ter derrotado as forças do Grão-Turco que haviam chegado a ameaçar as muralhas de Constantinopla.
No contexto destas aventuras deve ser referida aquela que, com todo o direito, pode ser considerada a mais importante do romance, visto que constitui o verdadeiro objectivo da sua composição.
No capítulo IV do terceiro e último livro encontramos “Clarimundo” em Portugal, na companhia do mago “Fanimor”, desde sempre o seu protector oculto. Este condu-lo ao alto da torre de Sintra e aqui, tomado pelo espírito profético, descreve-lhe em versos a sua gloriosa descendência: dele procederão os reis de Portugal que estenderão o seu domínio desde as regiões orientais extremas até às mais ocidentais.
A profecia de “Fanimor” ocupa no seu conjunto 41 oitavas e uma quadra em versos de ‘arte maior’, mas por si só confere um sentido novo a todo o romance. “Clarimundo” não é, ou não é mais, um dos muitos heróis dos romances de cavalaria; a sua função não se resolve simplesmente ao nível pedagógico exemplar, já que a sua acção, o seu heroísmo e a sua “corteisie”,recebem também um superior crisma épico.
Poema à boca fechada - José Saramago
Poema à boca fechada
José Saramago
Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.
Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.
Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.
Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.
Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.
José Saramago
Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.
Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.
Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.
Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.
Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.
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